Publicado originalmente na revista Caliban, em https://revistacaliban.net/ag%C3%B3leo-de-alexandre-faria-os-males-que-do-brasil-s%C3%A3o-511a28ccee4e
Entenda-se como repto, provocação, blague ou artimanha a rubrica “um romance instagrâmico” que Alexandre Faria apõe ao volume Agóleo (2024). Trata-se de poesia, ainda quando emprega procedimentos da ficção e outros gêneros da prosa (crônica, jornalismo, historiografia etc.). Trata-se de poesia de circunstâncias, nos termos propostos por Goethe nas conversas registradas por Eckermann:
… é necessário que seja sempre poesia de circunstâncias, dito de outra maneira, é preciso que a realidade brinde a ocasião e a matéria. […] Meus poemas são todos poemas de circunstâncias. Inspiram-se na realidade, sobre ela se fundam e repousam.
E para tanto, Alexandre Faria sabe escolher as circunstâncias que, de acordo com Éluard, “elevam o acontecimento à altura da história e da poesia”. Não por acaso, circunstâncias que se desdobram num arco histórico que principia com o “Grande Saque” de 1962 em Duque de Caxias (motor primevo das milícias cariocas) e alcança o diário de violência e barbárie que, desde o Brasil Colônia, rasura o idílico cartão-postal de praias, montanhas, florestas e outras belezas naturais.
No giro de reels tão comuns quanto bestiais, tão alheios à História Oficial quanto indeléveis, Agóleo nos dá a contracena da poesia que certo cancioneiro e outras manifestações emprestaram à paisagem do Rio. Poesia incinerada no micro-ondas das facções, poesia ferida de morte por alguma bala “perdida”, poesia condenada à margem da margem pelas políticas públicas. Poesia, enfim, mudada em mero “monstruário” nas vitrines das lojas nobres: “O que sobra é montra / Pão de açúcar de cada dia / Para turistas, poesia” (“Monstro”, p. 40).
Quando falta a poesia, socorre-nos a prosa: romance quase naturalista em miniatura, arremedo da escrita do pequeno historiador urbano, crônica da vida como ela é — crua e cruel –, reportagem policial sem quaisquer romantismos de época, samba de uma nota só da realidade brasileira — a nota dó. E assim, seja à beira do humor negro, seja com agudeza crítica, Alexandre Faria desvela sob o que se pretendia o monumento civilizatório dos trópicos — o Rio, retrato em cores do Brasil — o colosso de um monumento à barbárie, com fundações inelutáveis e cristãs assentadas nas pedras do Cais do Valongo:
Mas como narrar
O fio da chibata em nome de Jesus
O silêncio sob tortura
O segredo
(“Por uma antiépica da diáspora”, p. 26).
Fragmentário, elíptico, incômodo, antilírico e contranarrativo, Agóleo nos dá matéria e ocasião para, a partir do microcosmo carioca, pensar os males que do Brasil são.
Referências
- FARIA, Alexandre. Agóleo. Rio de Janeiro: TextoTerritório, 2024.
- Eckermann, Johann Peter. Conversações com Goethe. Trad. Mario Luiz Frungillo. São Paulo: Editora da UNESP, 2016.
- ÉLUARD, Paul. Sobre a poesia de circunstâncias. Princípios: Revista Teórica, Política e de Informação, São Paulo, n. 10, abr. 1985.